Capítulo Dezoito
_ Tentei por dias a mesma mensagem sempre aproveitando as
piadinhas do homem mais falador. Ele indicava os horários como se fosse uma
vitória.
“Mais um dia de procura em vão”, “Logo farão o que
mandei”. E assim passou uma semana. Duas. Três.
Eles me desamarravam somente para ir ao toalete. Era o único
momento que eu ficava sozinha, me esticava e chorava. Não estava sendo fácil
dormir sentada, ficar o dia todo na mesma posição e o pior com mordaça e cordas
no corpo. Havia horas que eu queria morrer, mas morrer por nada não seria bom.
Sempre imaginei que faria tantas coisas, por mim mesma e
também pelas pessoas. Mas presa com dois loucos, não sabia o que pensar para o
futuro.
Não sabia se teria algum futuro.
Concentrei-me uma vez mais.
_ “Born. Meu amor. Estou presa nos porões do hospital. Por
favor, me ajude. Não sei se aguento isso por muito tempo”.
_ “Layla?”.
_ “Born, graças a Deus me ouviu. Estou no hospital, na parte
que não é usada. Ouça com atenção. Os dois estão aqui todos os dias e sabem o
que está acontecendo e até os horários que vocês me procuram. Tenha cuidado e
não venha aqui sozinho”.
_ “Tudo bem...”.
_ Estava aliviada, mas não podia deixar que desconfiassem. Era
só esperar que o Born não pensasse que foi apenas um sonho.
_ Tire a mordaça. Quero levar um papo com ela. (Homem um).
_ Tudo bem. Oi docinho. Nossa, machucamos você. Olha como está
a sua boca. Não poderá dar beijinhos no doutor. Ah, de qualquer forma não vai
mesmo. (Homem dois).
_ Fico aliviada em saber o meu fim. Por que não termina logo
com isso?
_ Assim nos tira a graça. Quer morrer? (Homem dois).
_ Sim eu quero.
_ Por enquanto não vai. (Homem um).
_ Porque está falando comigo? Geralmente só esse outro é que
vem aqui, você só observa.
_ Resolvi deixá-la tomar um banho descente. Vamos subir um
andar, e se você fizer qualquer gracinha não vou pensar duas vezes. Você morre.
(Homem um).
_ Por que quer que eu me limpe? Não vai me matar de um jeito ou
de outro?
_ Sim, vou. Mas quero que a encontrem limpa e bem arrumada.
Quero fazê-los sofrer em ver tanta beleza desperdiçada pela morte. (Homem um).
_ Quando vamos?
_ Hoje à noite. Enquanto eles saem para te procurar. Assim será
mais fácil. (Homem um).
_ Tudo bem. Falta muito para anoitecer? Só quero poder me limpar.
_ Não vou cair na sua. Não vai me manipular. Amarre-a de novo.
(Homem um).
_ Deram-me água e comida, mas permaneci amarrada até à noite.
Finalmente chegaram. Um deles tinha uma sacola com sabonetes e colônias. Eu
poderia escolher o que quisesse. “Parece o último banho”. Não podia
pensar assim. Tinha que ser forte e pensar em um plano. Não dava para correr
por causa dos ferimentos. Podia me trancar no toalete. Podia dizer que estava
tendo problemas com o cabelo. Ia ser mesmo muito difícil desembaraçar. É isso.
Confiei que daria certo e que Born chegaria e os pegaria antes que eu
terminasse.
Tentaria ser rápida e ficar pronta para fugir, mas mentiria
dizendo que ainda não estava.
_ Vamos. (Homem dois).
_ Eu posso perguntar uma coisa antes?
_ Pergunte.
_ Você tem algum remédio para esses cortes? Estão doendo muito.
Sei que vou morrer, mas... Pode fazer isso por mim?
_ Hum... Vamos. No caminho nós arrumamos isso para você.
_ Obrigada. Apesar de tudo é gentil.
_ Hum...
_ Ele havia caído na minha conversa. Eu sabia que um deles
estaria na porta me vigiando e o outro sairia para buscar o que pedi. Só
esperava que a ajuda chegasse a tempo.
_ O toalete é aqui. Esse andar tem luz, então tem água quente
também. Fique linda como se fosse para uma festa. Ou...
_ Precisarei de tempo para isso.
_ Você terá o tempo que quiser. Nessa bolsa tem tudo o que uma
mulher precisa. Então não me decepcione. Não quero ter que matá-la por
desobediência. Prefiro ter um motivo real para isso. Meu irmão quer matá-la de
qualquer forma, mesmo que consiga o que quer. Eu não.
_ Tudo bem. Trancarei a porta se não se importar. Não confio
muito no seu irmão.
_ Pode trancar. Se não abrir quando terminar, eu derrubo. Não
quero nem um fio solto antes da hora, você tem que estar perfeita. Não seja
estúpida de tentar fugir.
_ Não serei.
_ Ele saiu e deixou a bolsa com realmente tudo o que uma mulher
precisa, só não pensou nos remédios. Por que pensaria?
Tranquei a porta e comecei a tirar meu vestido. Sentia-me
suja. Só panos molhados durante esse tempo todo e à luz de velas. Deixei a água
cair no rosto e estava tão gostosa. Pensei sobre o que ele disse e então eu
soube que havia esperança. Molhei os cabelos e usei os produtos que ele trouxe.
Desembaracei devagar os cabelos, pois tudo em mim doía.
Quando peguei a bucha, caiu uma pequena faca. Não acreditei
quando vi. Ele queria que eu fugisse? Seria um truque? Mas por quê?
Eu já era prisioneira há tanto tempo e não tentaria nada
estúpido. Nem tinha forças para isso.
Coloquei-a de lado. Até terminar o banho eu pensaria em alguma
coisa. Guardaria comigo de algum jeito.
Lavei meus machucados com cuidado. Eles me amarraram com muita
força. Havia feridas profundas. Minha boca e meu rosto estavam lastimáveis. Não
sei se conseguiria dar um jeito para parecer saudável.
O banho estava tão bom que quase me fez esquecer que eu não
podia demorar. Enquanto me secava ouvi os dois conversando. Um deles bateu na
porta.
_ Já vou abrir, estou molhada.
_ Abri e ele me entregou uma sacola com os remédios.
_ Obrigada.
_ Ele não disse nada, então, tranquei a porta novamente.
Deixei a água ligada para que pensassem que eu estava lá.
Verifiquei as roupas arrumadas e vi que tinham bom gosto. Também devem ter ido
comprar longe dali. Era um vestido azul e tinha um par de botas. Eram novos e
bem caros. Dava a impressão de estar indo cavalgar, mas para mim seria perfeito
para esconder a faca.
Vesti-me tentando proteger minha pele com os tecidos. Fiz
curativo nas pernas e enrolei os machucados. Calcei as botas e guardei a
pequena faca dentro.
Fiz um penteado deixando parte do cabelo solto. Estava tão
pálida.
Todos esses dias presa no porão sem ver a luz do sol.
Só faltava a maquiagem. Pintar nunca foi um problema antes,
mas meus braços doíam. Ainda tinha que fazer os curativos. O remédio era bom,
mas ardia. Foi bom fazer o curativo nos pulsos primeiro, porque meus olhos se
encheram de água.
Fiz um bom trabalho. A maquiagem tampou tudo. Só não conseguiu
tirar a dor que eu sentia.
Ouvi um barulho alto. Será que seriam os oficiais?
_ Layla? Abre a porta.
_ Um deles bateu, e falava baixo. Abri a porta.
_ O que foi? Eu não ia... Born?
_ Eu não sabia como reagir de tanta felicidade ao ver Born em
meu resgate. Sempre pensei que a telepatia fosse mentira, e que eu poderia ter
sonhado com ele me respondendo. Mas era real.
_ Rápido Layla, venha comigo, os oficiais estão por todos os
lados, mas não há sinal deles. Vamos, não há tempo.
_ Saímos o mais depressa possível dali. Levei comigo a bolsa
com os produtos. Os oficiais iam querer saber disso. Born me levou para o
quarto do hospital. Trancou a porta e começou a juntar minhas coisas. Ele
estava agindo estranho.
_ Born... Born?
_ Ele não queria me olhar.
_ Born, por favor. Não acha que já sofri demais? Fala comigo.
_ Layla eu não posso.
_ Por quê?
_ Primeiro tenho que tirar você daqui.
_ Puxei o braço dele com o resto de força que eu ainda tinha.
_ Born. É melhor falar comigo agora ou não vou a lugar algum
com você.
_ Tudo bem. Então me responde algumas perguntas, depois
respondo tudo o que quiser em troca. Mas quero que
seja sincera.
_ Claro.
_ Por que está vestida assim?
_ Eles me obrigaram a me limpar com paninhos molhados durante
todo esse tempo. Então hoje, suponho que pela manhã, um deles disse que eu
tomaria um banho completo no andar de cima e se tentasse alguma gracinha
morreria.
_ Como você não sabe se era de manhã?
_ No andar abaixo do qual você me encontrou não tem luz e nem
janelas. Eles me informavam a hora quando eu perguntava, mas não sei se era
verdade.
_ Por que enviou aquela carta?
_ Que carta?
_ Como que carta? Você escreveu coisas que conversamos sozinhos
neste quarto. E terminou dizendo que havia encontrado um homem de verdade. Que
ele havia feito carícias que você jamais imaginou antes. E eu pensei muito se
eu queria vê-la novamente.
_ Born, olha para mim.
_ Tirei as luvas. Comecei a desenrolar os curativos. Depois
tirei as botas e desenrolei os curativos das pernas. Limpei a maquiagem do
rosto. Ele foi perdendo a cor vendo como realmente fui tratada.
_ Vê? Você acha que eu estava sendo bem tratada? Amando meus
sequestradores? Não sei qual era a intenção deles, mas até o banho, maquiagem e
todo resto foi uma ordem, a qual ou eu obedecia ou morria. Como pôde pensar
tudo isso sobre mim?
_ Layla, me perdoe. Por isso resolvi dar um voto de confiança.
Não pude controlar meu ciúme. Não consegui pensar em você nos braços de outros.
_ Saia Born.
_ Layla?
_ Saia, quero ficar sozinha.
_ Não posso. Tenho ordens para tirá-la desse lugar.
_ Não vou. Com você não vou a lugar algum.
_ Tudo bem. Mas estarei aí fora.

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